[ Apresentamos essa tradução graças ao paraguaio Orlando e ao paulista Bruno].
Hugo Wast – Navios, Ouro e Sonhos –

O renomado novelista argentino Hugo Wast é um dos escritores de fala espanhola mais lido no mundo inteiro. Formou-se em Direito, foi também deputado, Ministro da Justiça e da Educação.
Tenho um amigo em Versales, que me escreveu assim: “Amanhã as cinco, executarão a Jorge Loos, assassino de 19 anos. Instalarão a guilhotina em plena rua, diante da prisão de Saint Pierre. Se quiser presenciar a cena mais trágica que se possa ver no mundo, venha hoje mesmo”.
Só me foi possível tomar o trem que sai de Paris às sete e meia da noite. Meu amigo já não me esperava mais, e me encontrei desorientado em uma hora em que as repartições estavam fechadas. Não seria fácil para mim fazer valer meus papeis para obter permissão para assistir a execução.
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Desde a estação, em companhia de um jovem Boliviano, Carlos Moscoso, me dirigi à prisão de Saint Pierre. Pelo menos veríamos o cenário da execução.
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Loos, em Janeiro de 1930, havia assassinado e roubado ao chofer de um taxi que o conduzia com sua amiga.
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As circunstâncias do crime eram comuns, mas a idade do criminoso e a brutalidade que demonstrou nas audiências, fizeram repercutir seu processo. Condenado a morte, solicitou um pedido de clemência ao Presidente da república, mas não lhe ouviram.
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A prisão de Saint Pierre está em uma rua larga que chamam a Praça dos tribunais em frente ao Palácio de Justiça. É um edifício achatado com um portal sempre fechado. Não há guardas. Ao lado, um Café cujas janelas superiores dominam o lugar.
Se alugássemos um destes quartos poderíamos presenciar tudo de mais perto.
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Entramos e junto ao zinco, bebemos um vermut. O Patrão nos serve e conversa, orgulhoso da momentânea importância que lhe dá o ser vizinho da prisão.
— A que hora levantam a guilhotina? É possível assistir sem uma permissão especial?
— Não; de maneira nenhuma. Ainda que a execução se faça na rua, o público é mantido a grande distancia por cordão de isolamento. Necessita-se de uma permissão especial, um Laissez passer a chefatura de polícia para aproximar-se dos “madeiros da justiça”, que se levantarão durante a noite.
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Ao patrão assimilou-se a linguagem dos tribunais, onde à guilhotina a chamam les bois de justice.
— Poderíamos alojar-nos aqui?
—Não tenho quartos livres.
—E esses dois que dão para a rua?
—Um é o meu; o outro está alugado.
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“A cena mais trágica que possa se ver no mundo”. Estas palavras do meu amigo me perseguem. A aplicação da pena capital é muito freqüente e a Lei quer que seja pública. Mas a autoridade vela severamente que a curiosidade má não transforme a mais horrível sanção social em um espetáculo desumano e escandaloso.Por isso é tão difícil presenciá-la.
Vamos ao hotel de Ville, onde o comissário central, M.Magnoux, pode conceder o laissez passer.
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A essa hora, às nove da noite, não está em seu escritório. O inspetor de guarda consente em fazer chegar-lhe nossos passaportes; e recebemos uma mensagem autorizando-nos a apresentar-nos às três da manhã, em frente à prisão Saint Pierre.
— Sejam pontuais!— nos disse o Inspetor. Recomendação desnecessária. Às duas e meia estávamos no lugar do encontro. A noite é clara, graças à lua quase cheia. Grupos de curiosos passeiam pela rua para combater o frio, comentando o grande acontecimento. Alguns automóveis começam a chegar de Paris.
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A porta da Prisão continua fechada, e o casarão, silencioso.
Detrás daquele muro branco Jorge Loos dorme tranquilamente.
Dorme realmente? Sim. Os detalhes de sua última noite divulgaram-se depois.
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Desde 27 de Novembro, dia em que a corte de assises o condenou a morte, dificilmente conciliava o sono. A cada momento despertava de sobressalto por tristes pesadelos. Esperava a cassação da sentença. E quando esta foi confirmada confiou na clemência presidencial. Tem dezenove anos e ama a vida. Além disso, seu advogado e o capelão da prisão, o abade Constantin, lhe hão infundido ilusões.
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Em outros tempos o réu entrava na capela no dia anterior da execução. Dispunha-se em morrer de forma cristã, e a palavra santa do sacerdote abria seu coração à imortal esperança.
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Paga sua terrível dívida, quitava-se com Deus e com os homens. A execução adquiria a dignidade de um rito religioso, e o réu era quase o ministro de um sacramento.
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Dom Cafasso, sacerdote de Turim, da metade do século passado, dedicou-se longos anos a auxiliar aos condenados a forca. A maioria daqueles criminosos subia ao patíbulo com mostras tais de contrição, que Dom Cafasso, a quem a Igreja acaba de elevar à honra dos altares, os venerava chamando-os “meus santos enforcados” (miei santi impiccati).
Desde que o espírito laico destituiu à guilhotina de sua transcendência religiosa, tiraram sua suprema dignidade.
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Aquele terrível altar converteu-se em uma armadilha traidora, armada à porta de uma prisão, entres as sombras da noite, onde o réu cairá apavorado, em frente aos representantes da Lei, que assistirão com repugnância.
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E então, essa noite, Loos conseguiu dormir profundamente. Era um rapaz cínico, brutal, que a tudo respondia com insultos grosseiros. De repente se pôs dócil e afetuoso. Amanhã ou depois, talvez dentro de três dias, virá seu advogado dizer-lhe: “O Presidente da republica te concede a graça. Já não morrerás Jorge…!”
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É forte como um atleta. Pagará seu crime com vinte ou trinta anos de trabalhos forçados. Sua boa conduta lhe conquistará sua liberdade. Até 1960 será um homem livre. Não terá cinqüenta anos. Como haverá progredido o mundo! Quantas coisas novas e belas, quantas invenções verão seus olhos na Grande Paris, em Estrasburgo, sua cidade natal…! Será uma ressurreição voltar ao mundo…! Que bom é viver!
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Tais pensamentos o arrulham quando já não há ninguém nem na prisão, nem em Paris, nem em Estrasburgo que não saiba a tremenda verdade; que a ele não o comunicarão senão às quatro e meia, do seu último dia.
Há quem opine que este segredo é humanitário. Da minha parte o considero uma monstruosidade. O réu tem direito de conhecer seu fim, com antecedência para que os nervos não o traiam, e assim dispor sua alma à resignação, e não entrar na irremediável eternidade; raivoso e desesperado.
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A Lei não pôde render maior homenagem ao ateísmo, que sacrificar-lhe o último e transcendental direito de um condenado a morte.
Em troca, lhe dão um copo de rum!
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Acabam de apagar as luzes na rua da prisão.
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Ao fundo, o relógio do Hotel de Ville abre sua pupila amarela sobre a cidade. As três!
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Percebe-se chegar um batalhão de soldados. Depois, um piquete de dragões a cavalo. Desocupam a rua e estabelecem barreiras a cada extremo. É inútil dizer que estamos ali por convite do comissário: onde está o papel? Todos poderiam declarar a mesma coisa, para ficar! Voltamos ao Hotel de Ville, nos recebe um oficial de boina com divisas, cavanhaque cinza e postura marcial. Chama-se M. Bouvandre. Dá uma olhada em nossos passaportes, e nos promete falar a M. Magnoux. Ele também quer ir lá.
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Para aproximar-nos novamente à barreira necessitamos atravessar uma verdadeira multidão. Muitos automóveis chegaram de Paris cheios de curiosos. Mas somente passa um ou outro privilegiado.
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A rua continua escura. À porta da prisão parou um carro. Ali trazem a guilhotina! Estremecimento de horror! Longo silêncio.
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Chega precipitadamente um oficial. “Esses senhores estrangeiros dos papeis grandes?” O comissário não sabe como nos chamamos, mas sim, lembra-se o tamanho do meu passaporte diplomático.
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Permitem-nos cruzar a dupla ou tripla barreira de soldados, penetramos na Rua Lóbrega, com o coração palpitante.
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Sim, acabam de chegar os madeiros da justiça. Um carro coberto, como um caminhão de mudanças, puxado por dois cavalos, foi descarregado do vagão que os transportaram desde Paris. Só existem duas guilhotinas na França. Quando em um presídio se anuncia uma execução, convocam ao carrasco, que chega à noite com sua enorme ferramenta.
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Interessante e sombrio personagem o “executor de altas obras”, assim o chamam oficialmente. Desde 1879 possui o cargo a família Deibler. Seu atual proprietário herdou de seu Pai, Luis Estanislao Deibler.
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É velho. Tem 67 anos. Quando abandonar o posto, passará a herança a seu sobrinho, que é um de seus ajudantes. O outro é seu genro. Só assim consegue guardar o segredo de sua vida.
Ninguém pode gabar-se de conhecer-lo. Nenhum jornal publicou seu retrato. Se ele mesmo não escreve suas memórias, como fez alguns de seus antecessores, ninguém as escreverá. Acrescentemos que, ganha a metade de um salário de um ministro, 80.000 francos por ano mais gastos com viagem.
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M.Deibler não usa seu verdadeiro nome senão oficialmente, quando se trata de suas “altas obras”. Em sociedade prefere ser chamado de outro modo, para não expor sua família à aventura de seu próprio Pai, que para casar-se teve que buscar a filha única de seu colega, M.Roseneuf, executor de altas obras na Argélia.
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Para ser carrasco se requer, além de um espírito nada comum, grande força muscular. Por sorte suas férias são longas. Quando não viaja, por razões de ofício, lê os diários e assiste às audiências dos grandes crimes e estuda o caráter de seus futuros clientes.
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Ainda reina a noite. Os dois ajudantes iluminam-se com um farolete. M.Deibler conhece de memória sua máquina, e somente de vez em quando, para ajustar um parafuso rebelde, acende uma lamparina.
Nem uma palavra, nem um ruído. Não se usam martelos, nem serrotes. Tudo são arruelas e engrenagens bem engraxadas. Cada qual sabe o que deve fazer, e ninguém fala.
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E assim, no silêncio absoluto vemos içar sobre a larga calçada, em frente ao portão, os dois suportes negros da guilhotina com o ranger dos mastros.
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Produzem-nos calafrios aqueles dois madeiros perpendiculares, separados por quarenta centímetros, com uma estreita ranhura de bronze por onde deslizará a lâmina de corte enviesado.
Antes a guilhotina armava-se encima de um tablado, ao qual subia o réu por uma pequena escada de dez degraus. Aquele breve calvário durava uma eternidade.
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Quantas vezes o desventurado não teve forças e os ajudantes tiveram que carregar-lo nos ombros, como um fardo.
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A construção, ademais, exigia um esquadrão de carpinteiros e muitas horas de marteladas que aterravam a noite e que o réu na sua cela escutava apavorado.
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Da máquina aparatosa e teatral que se usou até 1872 não restam mais que as peças essenciais, aperfeiçoadas pelos Deibler, pai e filho.
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Agora as duas estruturas se levantam do solo firme. À altura de meio metro há uma travessa em forma de meia lua. Sobre ela se apoiará a garganta do condenado. Um pouco mais acima, outro móvel, a maneira de cepo, se lhe prenderá a nuca, e o manterá nessa posição, que é a apropriada.
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Somente agora estou vendo o que vi. Aquela noite a visão da guilhotina que ia surgindo dentre as sombras produzia em mim emoções confusas e atropeladas.
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O céu começa a ficar fixo. No fundo da rua, onde se golpeava a imensa multidão, se desvanecia a esfera do grande relógio implacável.
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Quatro horas! A figura de M. Deibler é mais clara. Usa a clássica barbicha francesa, toda branca. Ele e seus dois ajudantes com sobretudo colocado, porque faz frio. A mim parece esse frio glacial, como nunca senti em toda a vida.
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M. Deibler se curva em uma caixa colocada no pé do muro e levanta com esforço algo que resplandece.
A lâmina!
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A introduz na corrediça dos montantes, e a faz jogar puxando de uma corda que move uma roldana. O suave barulho das engrenagens que a sustenta, eriça os cabelos. Está matematicamente calculada. Pesa 60 Kg e demora dois terços de segundo em cair.
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Pela aceleração dos corpos que caem, seu golpe ao chegar na meia lua equivale a um peso de 16.000 Kg.
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Quatro e quinze! Com a luz nascente já não se perde nenhum detalhe. O mais engenhoso, depois da lamina, é o básculo. Uno imagina como fará o carrasco para obrigar o condenado a ficar na plataforma e a colocar o pescoço na meia lua. O básculo se encarregará disso. É uma tábua oscilante, como uma balança que se colocou perpendicularmente.
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Em quanto o réu passe o umbral da porta com os braços amarrados nas costas o arremessarão de um empurrão contra o básculo, que instantaneamente ficara na horizontal, fazendo o cair de bruços e assim se deslizar como uma vagoneta até que os ombros batam com os montantes.
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O pescoço se encaixa na meia lua; o cepo o segura, basta pressionar a mola que liberará a lâmina.
Uma caixa com serragem, na frente da guilhotina, receberá a cabeça, e o básculo arremessará automaticamente o corpo num longo cesto de vime que está no lado e cuja tampa levantaram agora.
Quem inventou esta maquina, tão simples, segura, e … humanitária, segundo dizem os entendidos?
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É comum atribuir esta gloria ao doutor Guillotin, e acrescentar que ele foi a primeira vitima da sua invenção.

M. Guillotin, médico e deputado Convenção, durante a Revolução Francesa, nem inventou a guilhotina, nem morreu guilhotinado. Viveu longos anos afligido pela fama que lhe haviam dado uma invenção alheia, e morreu de morte natural em 1814. (Imagem do site herodote.net)
Não é assim. M. Guillotin, médico e deputado Convenção, durante a Revolução Francesa, nem inventou a guilhotina, nem morreu guilhotinado. Viveu longos anos afligido pela fama que lhe haviam dado uma invenção alheia, e morreu de morte natural em 1814.
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Seu papel foi bem modesto. Antes da Revolução, criminosos nobres cortavam-lhes a cabeça; aos plebeus enforcavam-lhes. Guillotin, propus a abolição deste irritante privilegio: plebeus e nobres, todos deviam ser igualmente decapitados. E propus também que se estuda-se se não poderia ser substituído o machado ou o sabre, que exigiam extraordinária robustez e habilidade no carrasco, por uma máquina instantânea.
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Um aparelho que num segundo fizera pular a cabeça seria um ideal humanitário, disse Guillotin.
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A idéia pareceu extravagante, em som de deboche começou a chamar de guilhotina à hipotética maquina. O qual não impossibilitou que o cirurgião Louis resolvera o assunto, construindo a primeira lâmina automática, que em honra ao seu verdadeiro inventor começou a funcionar com o nome de Louisette.
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Curiosas injustiças da fortuna! O nome legitimo não demorou em ser esquecido, e a maquina voltou a se chamar guilhotina.
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O oficial de policia monsieur Bouvrande aproxima-se de nos.
- É a primeira vez que os senhores assistem a uma execução?
- Sim, senhor.
- Não vão ver nada! Tudo acontece com tal rapidez, que o olho não tem tempo de recolher nenhum detalhe, quando já o fato estiver concluída…
- Quem é aquela mulher? – Perguntamos ao ver uma mulher que se aproximava de luto.
- É madame Peretto, a viúva do assassinado.
- E permitiram que venha?
- Como impedi-la? Ela quer ver morrer o assassino do seu marido.
- Desventurada! Não lhe basta saber que se fez justiça. Quer assistir ao suplicio. Se aliviará com isso a sua dor?
Quatro e meia!
Monsieur Bouvrande adverte-nos.
- Acordaram a Loos.
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Não precisamos ver a cena. Desde agora até o fim de cada movimento pertence ao rígido ritual das execuções.
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Os mesmos funcionários pronunciam as mesmas palavras, que o réu escuta com o mesmo pavor.
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O chefe da prisão, monsieur Magne; o procurador da República, monsieur Dubuc; o advogado, monsieur Perinard; o capelão, abade Constantin, se adentram na cela de Loos. O chefe chama-o pelo nome dele. Loos continua dormindo com o pesado sono da juventude.
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-Loos! – repete monsieur Magne, cutucando-o no braço. O jovem assassino abre os olhos.
È a vez do procurador da Republica, que pronuncia a frase sacramental:
- Seu recurso de graça foi recusado. É chegado a hora de expiar seu crime. Seja valente e comporte-se como um homem…
Aquele rapaz é alsaciano; seu idioma natal é o alemão; e nesse momento parece não compreender.
- Que me dizem estes senhores?
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Os seus olhares voltam-se ao capelão e a seu advogado.
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De repente, sem mais uma palavra, a luz se faz no seu cérebro, se esvanece o sono e se joga na cama violentamente. Acaso pensa em fugir?
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O capelão coloca-lhe a mão na cabeça.
- Meu filho!
Loos volta a sentar; com as mãos trêmulas recolhe suas roupas e começa a vestir-se. Uma lágrima escorre no seu rosto
- Então meu pedido de clemência…?
- Comporte-se como um homem!- lhe diz o advogado.
- Mas… vai ser hoje?
- Sim… logo…
- Depois da missa, se quiser assistir…
- Oh, sim senhor capelão!
- Quer se confessar e comungar?
- Sim, sim!
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O capelão faz um gesto e o deixam só na cela. Senta-se na cama e Loos ajoelha-se a seus pés e se confessa.
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- Meu filho, por grandes que sejam as tuas culpas, a misericórdia de Deus é maior. Aceita com resignação a morte que vais a sofrer. Não fales ao publico uma só palavra. Pensa na morte do Nosso Senhor Jesus Cristo e no bom ladrão, que morreu justiçado e salvou-se. Diga agora comigo os atos de fé, esperança e caridade. E o de constrição, que encerram todos.
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O absolve, apresenta-lhe um pequeno crucifixo de bronze sobre o qual se pousam avidamente os lábios secos de Loos.
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As lagrimas hão parado de correr, mas um rude soluço estoura no seu peito. Voltam os outros personagens.
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O chefe traz um copo de rum, o clássico copo de rum dos condenados à morte. Loos bebe sem vontade. Tem que comungar, mas nessas ocasiões a igreja permite quebrar o jejum. Considera-se a comunhão de um justiçado como o viático do moribundo.
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Na prisão de Saint Pierre não há capela. O abade Constantin celebra a missa num altar improvisado. Para não demorar-se, levava colocado os ornamentos sagrados, salvo o casulo, que coloca-o tirando o comprido sobretudo preto.
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Loos assiste, encadeado, mas com as mãos livres, e pode olhar seu devocionario. Onde está seu pensamento? Onde seu coração? Que transformação! Não é mais o rapaz insolente e cínico. É o bom devedor que paga suas dividas com tudo que tem neste mundo. Certamente não é o copo de rum que lhe dá a fortaleza. É a lembrança do bom ladrão; são esses atos de Fé, de esperança e de caridade. E essa cruz que o sacerdote desenhou-lhe na cabeça e o crucifixo que lhe fez beijar.
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Termina a missa junto com as badaladas das cinco no hotel de Ville. Em todas as janelas da prisão tem rostos que espiam a saída daquele que vai morrer.
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Loos está de pé. Vão-lhe fazer aquilo que se chama toucado da guilhotina. Obra de um minuto. Cortar-lhe-ão o cabelo da nuca e camisa nas costas e no peito, para que a lâmina não encontre nenhum empecilho.
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Loos se deixa tosar como um cordeiro.
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Encadeado os pés, amaradas as mãos nas costas fazem-lhe descer a escada lentamente, segurando-o. Tudo isto ocorre por de traz da porta da prisão, que ainda esta fechada.
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Na mesma hora, na rua, monsieur Deibler e seus ajudantes tiram os agasalhos.
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Este ademã simples nos faz estremecer. Monsieur Deibler vai começar os trabalhos.
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De fato, abre-se uma abertura numa das folhas do portão e se adentram os três funcionários da guilhotina. Então sai um grupo de oficiais, alguns de levita, com o chapéu na mão.
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Também a gente tirou o chapéu. Os soldados emtram em formação. Olho pro relógio da torre: cinco e dez.
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Adeus meu rapaz! Valor!- disse o advogado entregando seu cliente a M. Deibler.
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O capelão abraça a Loos, beija-o no rosto e volta a recomendar-lhe:
Não digas uma só palavra! Pensa em Deus!
Eu lhe prometo, senhor capelão.
São as ultimas palavras do infeliz.
O portão se abre de fora a fora; aparece Loos a plena luz da rua, atlético, branco, loiro, decotado de peito e costa.
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Adianta-se impetuosamente, como um boxeador que sobe no ringe, ou como potro jovem que desboca na pista.
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De repente, seus olhos azuis avistam a espantosa guilhotina e a sua lamina resplandecente. Foi algo que não durou mais que uma décima de segundo. Mas nesse tempo devem ter passado pelo seu cérebro as mais horrendas imagens de toda a sua vida.
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Ouriçaram-se seus cabelos; instintivamente inclinou-se para traz, mas a mão vigorosa de um dos ajudantes o arremessou contra o básculo, e caiu de bruços na plataforma, que se deslizou os trilhos lubrificados.
M. Deibler esperava na meia lua. Com a mão esquerda empunhou o loiro matagal dos cabelos, para ajustar a cabeça no cepo, e apertou o botão da lâmina.
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Não vimos, não pudemos ver o sinistro relâmpago azul. Mas no portentoso silencio daquele segundo, sentimos o abrir da carne e o estalar das vértebras fatiadas.
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Mal me atrevo a usar uma comparação, parece impiedade. O barulho era exatamente a de uma grande faca cortando pão que tivesse as migalhas fora e a casca dentro.
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Em seguida, a plataforma deita-se e joga o corpo para a cesta, e M. Deibler derrama nela a caixa onde a cabeça rolou num monte de serragem.
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Colocam o cesto num carro. O abade Constantin senta-se junto ao motorista. Vai abençoar o tumulo. Voltamos a nos cobrir.
No cemitério há um canto para a sepultura dos justiçados. Apenas colocarão uma lapide com o nome e data: “Jorge – 5 de maio de 1931.” O ultimo nome será excluído, para não desonrar a família.
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Em quanto isso, M. Deibler enxuga a lâmina e desarma a imensa maquina, em quanto um dos seus ajudantes, com um balde com água e uma esponja, lava as pedras onde pingaram o sangue.
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A serio! O homem que acabara de presenciar uma execução, não é o mesmo que era antes de presenciá-la. Algo mudou na sua consciência; e se é um jovem, algo madurou no seu coração.
Paris, 6 de maio de 1931
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