[Este texto foi transcrito do livro Nova Fundamentação Metafísica da Ordem Moral. Este livro não foi editado e as imagens são inseridas por nós.]

Hegel
Por Dr. P. Emílio Silva de Castro
Exemplo frisante de sofistica no-lo oferece Hegel que, possuidor de uma portentosa sabedoria e dotado de um poder de criação dos maiores que tenham existido, empregou seu gênio na formação de um sistema mais imaginativo e poético do que estritamente filosófico, que de pouco valeu para o progresso positivo da filosofia. Entretanto estava Hegel tão possuído do seu saber e do valor de sua originalidade que algumas referências que dele nos faz Kuno Fischer não podem menos que fazer-nos sorrir: no curso de 1820 iniciava aulas com estas palavras: “Eu poderia dizer com Cristo eu ensino a verdade e sou a mesma Verdade”. E noutra oportunidade: “Eu descobri tão profundamente a verdade como nenhum outro mortal antes de mim”, e escrevi parágrafos “que mais parecem inspirados pelo Espírito Santo”. Tão convicto está da sacralidade dos seus escritos que ai de quem se atrever a alterá-los no mais mínimo detalhe; “minha maldição para aquele que, numa futura impressão de minhas obras, alterar adrede alguma coisa, seja um parágrafo, ou mesmo uma só palavra, uma sílaba, uma letra, um sinal de pontuação!”([1]). Como alguém lhe objetasse que seu idealismo não se armonizava com os fatos; “tanto pior para os fatos”, Um so schimmer für die Tatsachen, replicou Hegel imperturbável.
Esse afã de originalidade fez pulular também na ética, teses ou sistemas de moralidade os mais extravagantes, pelo que nos vemos na necessidade de selecionar para a sua exposição e crítica somente os mais significativos e influentes. Por causa dessa prousão de doutrinas vemos em nossos dias uma tremenda desorientação e muitos intelectuais extraviados que, sentido o vazio e a necessidade de princípios, no inútil esforço do seu desordenado espírito, abraçam-se a quaisquer arremedos de idéias, como o náufrago desesperado, à espera das ondas, julgando que nelas acharão talvez apoio firme a que se arrimar.
Seja como for, o importante em nosso caso será sempre conhecer e valorizar aqueles homens que mais contribuíram para aumentar o cabedal científico e moral da humanidade.
Outro aspecto que queremos tocar nestas considerações introdutórias, relacionando a miúde com o da originalidade, é o de clareza e diafanidade do estilo, tanto mais quanto que, de algum tempo a esta parte, um onda de escritos filosóficos, cada qual mais obscuro, nos intoxica. Em muitos casos pretende-se sentar praça de sabedoria, envolvendo idéias as mais comuns e gerais de nosso pensamento, num nimbo misterioso e transcendental de linguagem.
Neste ponto de obscuridade de estilo, ninguém rivaliza com os pensadores germânicos. Confesso que é muito o que aprendi e o que devo aos sábios alemães; não deixa, porém de causar-me verdadeiro desgosto, em muitos deles, a pretensão de passarem por profundos , servindo-se de um estilo arrevesado ou confuso, quando não afetado por um barroquismo verbal, à Heidegger, dos mais enfadonhos que se possa imaginar. E não é que sejamos favoráveis ao estilo leve e superficial à francesa; não, sem duvidada: é sempre desejável a profunda riqueza de idéias, expressas, porém, em linguagem clara pelo menos, quando não amena a literária.
Já W. James escarnecia dos professores aleães, “que fazem gala de serem ininteligíveis”([2]). E Schopenhauer, que sem dúvida conhecia bem seu povo, alerta-nos contra o vêza de impingir-nos palavras em vez de idéias: Die Deutschen sind gewohnt, Worte statt der Begriffe kinzunehmen ([3]). Balmes, o arguto expositor do idealismo romântico, tão estimado e lido na Alemanha e cuja clareza de estilo é proverbial — dele diz Klimke que expõe o pensamento filosófico “in forma originali et cum eximia claritate” ([4]) — referindo-se à nebulosidade do estilo germânico, assim se exprime: “No falta quien há dicho que Aristóteles habia dejado algo obscuros ciertos pasajes de sus obras, com la mira de que, ofreciendo lugar a interpretaciones diversas, diesen pie a sus discípulos para defenderle contra sus adversários. Se alo que fuere de semajante conjetura, es preciso convenir em que los filósofos alemanes han dejadi muy atrás en esta parte al filósofo de Estágira, pues han sabido envolver en tan espesa nube sus ideas, que ni aun los iniciados en el secreto han podido lisonjearse de penetrar sus profundidades. Nadie ignora el misterioso linguaje de Fichte y de Schelling, y por lo tocante a Hegel, el mismo ha dicho: “Y ni aun éste me ha comprendido”([5]). Essa escuridão na linguagem tem encontrado estímulo na opinião mui corrente de que o profundo deve ser obscuro. “Du fait — escreveVerneaux — qu’une pensée profinde est souvent obscure, on em vient facilement à croire que toute pensée obscure est profonde”([6]). Unamuno confessa que este equívoco foi para ele causa de tormento na leitura de Kant e de Hegel, pois “teimava em penetrar no sentido oculto, pensando tudo que era escuro era profundo, o mais profundo, o inexprimível”([7]).
Ortega y Gasset reagiu sempre contra esse modo nebuloso de escrever. “Sua técnica, inversa à de Heidegger, diz Marias, consiste em fugir dos neologismos e devolver às expressões usuais do idioma, seu sentido mais autêntico e originário, cheio muitas vezes de significação filosófica ou dela suscetível”([8]).
Famosa se tornou a frase de Ortega, que para todos deve constituir um programa de estilo filosófico: “La cortesia del filósofo es la claridad”, que com leve variante exprimia em italiano, Piero Martinetti: “Chiarezza è l’onesatà d’um filosofo”([9]). Queremos encerrar este parágrafo com as sábias palavras de Garcia Morente: “La exigência de claridade es el estímulo más fecundo del pensamiento. No contentarse fácilmente, no someterse dócil a la seducción de aparentes aciertos, es la condición esencial de toda profundiad. Para un pensador exigente nada es nunca suficientemente claro. Y lo menos claro, lo más sospechoso de todo, es la pretención, entre absuda y interesada, de los que proclaman la superioridad del arcano sobre a luz, del misterio sobre la evidencia”([10]).
[1] Kuno Ficher: Geschichte der neuren Philosophie. Neue Gesamtausgabe. Mannhein u. Heilchelberg, 1897, VII,139.
[2] Vid. Lalande: Pluralisme, in: Revue Philosophie LXIX, 1910,70-80.
[3] A. Shopenhauer: Uber die vierfache Wurzel dês Satse vom zureichenden Grunde, 20 (Sämmtliche Werke, ed de J. Frauenstädt, Leipzig, 1908, I, 39.
[4] Fridericus Klimki: Institutiones historiae philosophiae. Roma, 1923, II, 292.
[5] Jaime Balmes: Cartas a um escéptico, c VIII in: Obras comletas, ed. Da BAC, Madrid, 1949, t:V, pág. 336.
[6] Roger Verneaux: Leçons sur l’existencialisme et sés formes principales, Paris, Tequi, s/d/., 5.
[7] M. Unamuno: Recuerdos de niñez y de mocidad. Ap. Nemesio Gonzalez: Unamuno, trajectoria de su ideologia y de su crisis religiosa. Comillas-Santander, 1948, 45.46.
[8] Julian Marias: Historia de la filosofia. Madrid, 1948, 404.
[9] Vid. Francesco Olgiati: I fondamenti della Filosofia Clássica. Milão, Vita e Pensiero, 1952, pg. VI. O autor transcreve ainda a expressão de Galileo: “Parlare oscuramente lo as fare ognuno, me chiaro pochissimi” Ibid.
[10] Manuel Garcia Morente: Ensayos. Madrid, Ver. De Occidente, 1945, 60.
[Este texto foi transcrito do livro Nova Fundamentação Metafísica da Ordem Moral. Este livro não foi editado e as imagens são inseridas por nós.]

